Sei que te prometi ser forte e não me deixar cair por essas coisas tolas da vida, sei que te prometi me tornar mulher e esquecer das infantilidade de menina. E eu estou tentando, juro que estou. Mas a cada dia se torna mais complicado lembrar que minha força, agora, deve vir do interior, não de você. Por mais que eu negue, que esse medo de perder o controle me impeça de admitir, lá no fundo eu sei da verdade – se eu seguirei as pontas, foi por você. Se eu guardei minhas lágrimas, foi por você. Se eu engoli as palavras cruéis e me açucarei, foi por nós dois. E agora, o que eu faço comigo mesma? Junto com você, foi-se a minha parte madura e independente. Engraçado, sempre pensei que fizesse tudo sozinha, e acabo de perceber que a cada passo eu me tornava mais dependente tua. Como uma droga, um veneno. Você foi minha salvação por tanto tempo, e agora me faz cair em um abismo ainda maior. Você nunca foi capaz de entender, você nunca sentiu nada. Você nunca me amou, meu garoto. Fui eu quem amei por nós dois.

Agora, de frente para o espelho, eu olho minha imagem e já não me reconheço mais. Os traços são os mesmos, as roupas são as mesmas, tudo está igual. Mas não parece mais eu. Essa estranha que se adentrou e tomou posse do meu corpo é um ser que eu desconheço, é um ser sem vida, sem paixão. Tudo isso foi tirado de mim com a mesma rapidez que me foi dado, toda vontade de gritar se acabou. Só me sobrou um murmúrio rouco, eu perdi minha voz. Engraçado, eu costumava não saber a hora de parar de falar. Dizem que o amor nos muda, mas pensei que fosse para melhor, pensei que ganhássemos cor, não apatia. Por muito tempo, admito, fui feliz. Mas acabo de descobrir que esse “sou feliz” é a maior desgraça do amor – você acredita nisso com todas as suas forças, até que ele se acaba e você percebe que, na verdade, “somos felizes”.  Engraçado, depois de tanto tempo, eu desaprendi a diferenciar o “eu” do “nós”.

Mas, como dizem, em toda comédia há tragédia. E acho que essa se encontra mais presente em mim do que em você. Onde eu estava esse tempo todo, enquanto as coisas mudavam? Sinto como se você houvesse me isolado em um baú no fundo do seu quarto, com medo de sair de lá e enlouquecer por saber a verdade – você sempre soube que eu era fraca. Mesmo quando eu engolia o choro, mesmo quando eu abafava o grito. Mesmo que o mundo estivesse desabando e eu sorrindo, você sabia que, dentro de mim, a fraqueza era a minha maior derrota. Eu aprendi a escondê-la do mundo, mas nunca fui capaz de mentir para você. No final, você estava certo. Sei que te disse que estava tudo bem, que o para sempre nunca existiu pra mim também. Mas apenas uma olhada rápida para dentro dos meus poços negros pode revelar-te o meu estado real. Eu estou em um meio termo entre “destruída” e “acabada”; perdi minha solução, meu garoto. Agora só sobrou eu, e viver sozinha nunca foi meu dom.

Não vou te mentir, não a essa altura no campeonato. Sempre fui verdadeira contigo, não vejo motivos para deixar de ser, logo agora. Se esse é o final, esse é o momento da verdade. Por mais que eu queira voltar correndo para os seus braços, te ligar desesperada e pedir para que regresses. Por mais que a tua falta esteja me fazendo derramar lágrimas em cima desse teclado, que minha mãos estejam tremendo e a angústia esteja prestes a derrubar meu peito. Por mais que todas essas palavras não tenham influência sobre você, eu gostaria que você soubesse – me perdoa. 

Me perdoa pela falta de espaço, pelo sufocamento precipitado. Por ver uma borboleta em alguém que era apenas uma lagarta, por chamar de amor aquela sensação de bem-estar. Me perdoa pelas ligações de madrugada, pelas mensagens desesperadas. Me desculpa por confiar em ti meus segredos, por acreditar que poderíamos dar certo. Me perdoa por tentar te mudar, e por deixar que você me mudasse. Me desculpa, acima de tudo, pelas cartas não entregues, pelas palavras profundas que você nunca foi capaz de compreender, pelo futuro que planejei sozinha. Me perdoa por depositar minha fé em quem não merecia um único segundo do meu tempo. Apesar de tudo, eu te amei. Amei teu cabelo bagunçado, tuas roupas descombinando, teu olhar de moleque e teu jeito de dono do mundo. Te amei por inteiro e desejei que isso fosse o suficiente para ser eterno. Hoje eu vejo a minha estupidez. Por que antes de ser eterno, tem que ser. E você não foi. Agora eu sou capaz de entender que meninos, serão apenas meninos. E eu preciso de um homem, porque, apesar dos pesares, você me ensinou a ser mulher. Então, me perdoa – mas quem te manda embora, agora, sou eu.